quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Fragmentos do nosso passado

    Realizados os lançamentos dos livros em Porto Alegre e Rio Grande, começo agora a receber mensagens dos meus novíssimos leitores que muito me emocionam e incentivam.  Escrever sempre foi para mim uma atitude totalmente solitária e, por consequência, segura. Talvez por esse motivo, alguns dos meus poemas agora publicados estavam guardados há quase vinte anos. A percepção dos que escutam agora os ruídos mais profundos da minha alma é de extrema importância para mim. Por isso coloquei no livro os meus contatos. Aprecio por demais essas opiniões, mesmo as desfavoráveis, as lendo com respeito e atenção. De tudo, o que mais me comove é perceber que de algum modo, certas pessoa foram tocadas profundamente pelo que leram.  A divulgação do livro, tornando públicos os meus sentimentos, dores e esperanças, trouxe uma sensação incrível de liberdade que quero também compartilhar. Não é demais repetir que a vida é breve e é hoje. Nenhum segundo antes ou após. Portanto, libertem-se! Exponham-se nas suas verdades tornando-se mais leves.  O dia para ser feliz é hoje, da forma como se apresenta, mesmo repleto de contratempos. Quando a maré é ruim basta a certeza de que passará, com aquela convicção de que a impermanência é a realidade. Mas, se o momento é de alegria, então não há desculpas. Absorvam, profundamente essa sensação e permitam-se, simplesmente, a felicidade.

domingo, 23 de outubro de 2011

Intuição

    Escrevo há muitos anos. Lembro de virem em minha mente idéias a serem escritas tão logo iniciava na percepção das letras e das palavras. Recordo que muito pequena escrevi este poeminha: "Como é bom ser criança e jamais perder a esperança de um dia voltar a ser criança." Devia contar lá com meus oito, nove anos, pensava em retomar algo que sequer havia perdido.
    Sempre houve, todavia, uma densidade um tanto exacerbada nos meus escritos, especialmente se comparada à minha idade. E em determinados momentos da minha vida, afastava-me dos poemas porque me conduziam a um mundo, não raras vezes dolorido e eu imatura que era, deixava-me entristecer.
     Hoje compreendo que essa minha cumplicidade com as palavras é quase como um dever, de sentimentos em palavras que necessito compartilhar.
    Alguns dos meus poemas mais densos foram escritos aos meus dezesseis anos, lançando em mim sentimentos mais profundos do que as minhas próprias, ainda tão ingênuas, vivências.
    Exemplo disso, é o poema A Ausência, que inaugura o livro.
    Após escrito compreendi que retratava a dor de uma senhora de muita idade, cabelos cinza, quase branquinhos, que vivia em uma casa, simples, de madeira com uma varanda e que num entardecer de outono, olhava a vista solitária de seu lar, saudosa do marido que já havia falecido.
   Diz o poema:

" Folhas caem pela varanda
da minha-nossa casa,
enquanto o vento parece levar, a cada dia,
um pouco da nossa felicidade.
E, inconscientemente, me pego sozinha
a olhar pela janela
tentando encontrar-te em algum lugar da paisagem,
mas tudo parece tão triste...
Olho ao redor e tento convencer-me
de que nada mudou,
mas, como?
Se dentro de mim algo dói demais.
Às vezes chego a por a mão no peito
para ver se meu coração ainda está aqui,
porque se fecho meus olhos
esse vazio que atordoa a minha alma
faz-me crer que o levaste contigo.


E quando o sol insiste em tocar
neste meu rosto cansado
convenço-me de que ainda há vida
e que o sonho de te reencontrar
pode, de alguma forma, tornar-se real.


E se a chuva cai devagarinho,
confundindo-se com as minhas lágrimas,
posso, ainda, sentir-te ao meu lado
como quando chorávamos de felicidade.


Hoje, sonhei mais uma vez
contigo
e com as palavras tã especiais
que me dizias,
com o teu jeito seguro de me olhar,
de me pegar em teus braços
onde eu quase desaparecia
e sorria.


E te imaginei
ao meu lado novamente
a olhar-me com aquele ar inocente,
jeito de menino,
cujo brilho nos olhos
as tristezas jamais conseguiram apagar.


E, de repente, já não posso
impedir a lágrima
que escorre pelo meu rosto...
E lembro o quanto fui feliz!
As flores que deixo
a cada amanhacer
temo não as perceba.
Mas persiste em meu ser
a esperança de estares, de alguma maneira,
ouvindo as minhas palavras...


Gostaria apenas que soubesses,
  que entendesses,
    o quanto
     e como
      sinto a tua falta.
Mas as folhas, ainda assim,
caem
como que indiferentes
ao meu sofrimento."


   

sábado, 8 de outubro de 2011

Pura e bela amizade

De quando em quando
Uma se ergue, consolida
A amizade faz-se verdadeira
E de harmonia preenche a vida

O ar parece fluir mais tranquilo
A inquieta mente encontra abrigo
Nem tudo se mede ou quantifica
Mas pouco é tão caro como um amigo

Na dor, compreende
Na alegria, compartilha
Não dá, nem pede.
Alivia. Alivia.

Quando revolto o oceano ou
Areias de vento nos alcançam
Olhos cegos parecem pedir direção.
Felizes os que nas horas mais complexas
Nos momentos mais desesperados
Têm um amigo, perto ao coração.

A dedicação sem cobrar
A palavra marejada no olhar
O apoio quando tudo a desintegrar
A escada no vão da vida a salvar.

Amiga,
Tem como tua a minha mão
Já calejada e também frágil
Mas morna de tanto amor.
Divido contigo o teu sofrer
Para transbordar em mim a ânsia
De juntas, sem dúvida, vencer.

sábado, 24 de setembro de 2011

Uma mãe, o crack e a esperança

" Em beira ao rio escuro fez a prece mais desesperada
Debruçada sobre as margens clamou por ajuda
As lágrimas escorriam constantes, mornas de dor
O sol escondido no horizonte indicava um rasgo de vida
Mas a dor estrangulante, sufocante, arrebatava-lhe a alma
Não queria compreender porque agira daquela forma
Retumbava em seus ouvidos a culpa pela escolha errada
Nada mais parecia salvar-lhe as esperanças
De joelhos, entregue, abandonou-se em si mesma
Recolhida no íntimo de sua mente
Recordou momentos de paz
Sorrisos infantis adentraram-lhe a mente
E pode ver seu filho, ainda, muito menino
Correndo sem rumo pelo campo de borboletas
Quase podia alcançá-lo...
Os sons misturavam-se ao silêncio do rio
Percebeu, ainda uma vez, o brilho insubstituível
Daqueles olhinhos cansados, mas felizes
A luta era tão árdua, cruel, devastadora
Era forte, todos diziam,
Sem saber da fragilidade imensurável de seus pensamentos
Da incerteza constante de sua mente
Do medo aterrorizador que bravamente afastava a cada segundo
Ainda entregue, percebeu seu menino, saudável, como era
Rindo e correndo
Caçoando de suas preocupações
E deixou-se esboçar um sorriso...
Sim
Enquanto pudesse reviver aquela certeza
Haveria esperança
Tomando nas mãos a força das águas e das pedras
Fez sua aquela fortaleza
Como que embebida pelo líquido da confiança
Abriu seus olhos e viu-se brava de novo
Apta a retornar a batalha
Pelo seu grande menino, que,
Tomado pelas escolhas erradas
Cercado pela dor e angústia
Perdido
Clamava pela sua ajuda
Uma vez mais."

         O crack destrói vidas, mas antes delas, corrói sonhos, estanca esperanças, destroça os laços familiares, impondo às vítimas de tão cruel algoz um sofrimento perene, permeado por crises de violência, às vezes fatais.
            O sofrimento desta é o de outras tantas mães. As lembranças desta são tão amorosas como das demais. Todos queremos um futuro saudável e seguro para nossas crianças, que o tempo, inexorável, tornará, em um segundo, adolescentes, em outro, adultos.
            A percepção do ser humano com suas fraquezas e a aceitação de que escolhas erradas não acontecem apenas no bairro distante, mas na porta da nossa escola, há de abrir-nos os olhos, antes que nos encontremos, em desespero, buscando no passado um sinal do filho que uma vez nos abraçou como se pudéssemos, naquele e em outros momentos, protegê-lo de toda a dor.
            Que o diálogo nos mantenha próximos de nossas crianças. Que a informação os ajude a escolher o melhor caminho. Que tendo eles encontrado o inimigo, sejamos, juntos, fortes, bravos, imbatíveis, pois droga alguma, por mais devastadora que seja, poderá apagar os momentos sublimes de amor e a capacidade de superação que existe em cada um de nós.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

A te perder

Descabe agora indagar por que
Merecias tão grande devoção
Eras parte e todo num só
Via em ti a mais bela canção

Todavia sem mais, nem perceber
Abandonas o meu mais cálido querer
Deixas a mim
Como barco ao mar
Lançanda, enfim
A mim a chorar

Peço-te.
Clamo por perdão.
Tentativa louca
Seguro-te nas mãos.

Sem me ver
Desprezas o olhar.
A lágrima em mim
Para sempre ficará

De joelhos
Em mim
Mas já nem mais
Ouço o som da
Tua presença que se vai

No escuro
Sem ar nem mansidão
Entrego enfim
A Deus
Meu coração.

domingo, 18 de setembro de 2011

O primeiro voo

E o pássaro deu o primeiro salto
sua asas, de inexperientes,
o levaram ao chão
e sentiu a terra imponente
adentrar por suas penas,
impondo-lhe decisão e luta.

No entanto, não tinha sequer a visão do ninho
que, de tão distante,
acabou por duvidar-lhe a existência.
Não se permitiu, todavia, sentir a dor
que objetivamente existia
e fingiu não ver o líquido avermelhado
que escorria por suas penas, quase plumas,
brancas,
agora rosadas.

Eergueu com cuidado a cabeça
e viu todo o mundo,
que se resumia a algumas rosas esquecidas,
em meio à imensidão quase vazia
daquela terra distante
que do alto
sonhara sempre em conhecer.

Sentiu uma brisa que acalmou suas ansiedades
transmitindo-lhe a paz
que jamais imaginara existir,
quando foi tomado nas mãos
de uma das criaturas grandes que já havia avistado.

Temeroso, estranhamente,
sentiu-se protegido.
No entanto, o sol já havia se posto.
Infelizmente, cedo demais,
levando a primeira
e única
e última
imagem que teve deste mundo.

Tempo...
pouco.

Tarde demais
para essas criaturinhas que nos damos ao direito
de tirar as vidas
antes mesmo que a vida por inteira
seja por elas conhecida.
Pois nada mais cruel do que a falta de oportunidades
e nada mais eficaz para destruir vidas e sonhos
do que não se ter para onde olhar,
do que não ser notado
do que simplesmente não ser.

Se ainda resta esperança,
é pouca
para as nossas tantas
e quantas
criaturinhas,
que nem sequer conseguem
dar o primeiro voo
e já caem forte demais
para pensar em sonhar.



(Este poema foi publicado em 1995, na 4a Coletânia do Centro Literário Pelotense - CLIPE)

domingo, 11 de setembro de 2011

Um filme para ser sentido

    Vi um filme bem interessante. O título, como não raro acontece, não lhe faz jus: "Se enlouquecer não se apaixone". Trata de um menino, nos auge dos seus dezesseis anos - aquele tempo do qual todos sentimos falta -  que pensa em suicidar-se e ao descobrir-se na sua bicicleta, quase a pular da ponte, resolve procurar ajuda em um pronto socorro.  Acaba, após alguma insistência sua, internado na ala psiquiátrica do hospital e lá, enclausurado, aprende a apreciar da vida, o que muitos de nós já esqueceram.
    O filme, ao contrário do que possa parecer, é denso sem ser piegas. Possui a leveza da narrativa toda em nome do próprio jovem e retrata de modo justo e sensível a vulnerabilidade humana.
    O permitir-se vulnerável, na atualidade, antes de representar fraqueza, deve indicar coragem. Vivemos na época em que o parecer transcende o sentir. Temos de ser fortes, hábeis, bem sucedidos, bem amados, sadios, inteligentes, sempre. E para quê? Para quem? No final devemos mesmo satisfação aos nossos mais internos sentimentos. Estou sendo honesto com minhas aspirações verdadeiras?
    O filme trata da liberdade. Libertar-se... dos papéis que nos são revelados com o amadurecer; das rotinas asfixiantes; do deslinde que acham escrito para a nossa vida.
    E também revela a compaixão e a capacidade que todos possuem de interferir positivamente nas dores e insanidades alheias.
    A mesma depressão que assolou o menino, vez por outra bate a nossa porta. Acredito que haja um véu, tênue até certo ponto, que nos separa da depressão, especialmente nos momentos agudos de dor. Como uma cortina transparente e fina a tocar-nos a face. Mas uma vez atravessada, torna-se densa, escura e, apenas com muito esforço, voltamos ao estágio anterior.
    O filme materializa esse grito de ajuda. Às vezes inaudível, abafado que está de tanto sofrimento. Cabe a nós, no momento no lado de cá, ouvir. Apenas ouvir e valorizar essa doença tão comum, que apanha de forma sorrateira pré adolescentes e até crianças.
    Em dias corridos, de internet e informação é preciso parar. Como o aviso aos trens, nossas crianças precisam que paremos.
    Paremos, tudo, verdadeiramente, não adianta conversar com o olho espichado na novela ou futebol. Olhemos, intensamente, com a alma aberta para o que tiver de ser visto. E finalmente, escutemos, sem crítica imediata, sem interrupções, apenas escutar.
   E talvez então tenhamos chance contra esse mal, cruel, que suga da alma o desejo de viver e joga o corpo, cansado, oco, a um sobreviver temporário, provisório, a espreita do final.
    O filme deixa uma mensagem de esperança. Não ingênua, mas verdadeira. E finaliza num lindo ode à vida pleno de simplicidade, o que, a meu ver, é o que temos de melhor.

sábado, 3 de setembro de 2011

Novas Portas

   Em que exato momento perdemos o frescor da mente, a esperança ingênua, a coragem de tudo?
   Qual o instante, acontecimento que nos aparta dessa vida leve?
   Ou será que, em verdade, vamos galgando uma escadaria e quanto mais alto subimos mais nos afastamos daquela simplicidade e singeleza, alegria e inocência infantis?
   Acredito que há momentos em que o peso da realidade nos afasta por demais da essência.  
   Como se cascos fossem aderindo à nossa pele, formando camadas e camadas de proteção.
   Essas mesmas camadas que logo ali nos impedem de apreciar o segundo de genuína felicidade.
   A fortaleza protege e afasta. O medo cria mais e maiores barreiras, que em verdade de forma labiríntica, de quando em quando, chegam a asfixiar.
   Proponho uma revolução interna. Lotada de riscos. Intuída por aquela leveza que todos trazem de algum momento da vida.
   Arranquemos os cascos, um a um.
   Derrubemos as paredes do labirinto (em verdade frágeis, arenosas, apenas ali em ilusão).
   Desnudemo-nos dos 'pré conceitos', das críticas, das expectativas.
   Encontremos a vida como quem se atira ao mar em um dia de calor.
   Intensamente.
   Totalmente.
   “Abre-te!”
   Li e jamais esqueci.
   Temos em nosso interior o poder de operar mudanças absurdas e inesperadas nas nossas vidas.
   Cada inspiração é um novo recomeço.
   É preciso que se viva melhor.
   A evolução dos tempos tornou-nos escravos das responsabilidades, horários, salários e olvidou-se de trazer a chave para viver em meio a essa perturbação.
   Não se vê ensinarem  o poder da inteligência emocional.
   O que não significa estarmos impedidos de desenvolver esse autoconhecimento.
   Que a vida venha em cores. E que nós saibamos percebê-la.
   Que o dia mais enfadonho não nos afaste da convicção de que estar vivo já é a preciosidade extrema.
   Que possamos abrir a cada dia uma porta diferente, sem medos, com a ansiedade, aquela de antes, do frescor.
   Enfim,
      que venha a vida!

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

As Marcas da Vida

    Há seis anos, tive diagnóstico de leucemia mielóide crônica. Na mesma ocasião, encontraram também um carcinoma in cito.
   Se me dissessem que seis anos após, eu estaria publicando um livro, eu jamais acreditaria.
   Se me informassem que, sim, eu veria a minha filha, então com pouco mais de dois anos, alfabetizar-se, eu diria que estavam doidos.
   E, mais, se contassem que eu, exemplo do sedentarismo, estaria correndo quase vinte minutos e gostando, eu gargalharia, para não chorar.
   Mesmo se me dissessem apenas: daqui há seis anos, estarás viva! Nem assim, naquele momento,  confiaria totalmente nessas palavras.
   Jamais esquecerei quando, na espera para uma consulta espiritual, ouvi da minha tia Arminda que  somos marcados como gado pelos nossos sofrimentos, nosssa perdas.
   ' Ninguém passa por essa vida imune', lembro de ouvi-la falar.
   Acredito muito naquelas palavras.
   Somos marcados a ferro e fogo pela vida.
   Sangramos.
   Sofremos e com o tempo as marcas cicatrizam, mas para sempre estarão aqui.
   Mais significativas do que as tatuagens, eis que não foram escolhidas mas impostas.
   Questiono-me: se soubesse o dia de hoje, teria enfrentado melhor as dores do passado?
   Creio que não.
   Aprendi a amar a vida de uma forma particular e intensa.
   Verdade apenas é que tudo se modifica a cada instante.
   Nós, os rios, os sons, os sentimentos.
   E a surpresa do amanhã ainda persiste trazendo o que há de mais belo na aventura do viver
        -  a esperança.
   Li, recentemente, uma belíssima poesia de Manuel Bandeira que, a meu ver, retrata perfeitamente o porquê da opção que fazemos a cada amanhacer pela vida,
ainda assim e apesar de tudo, pela VIDA.
Diz o poema:

A VIDA ASSIM NOS AFEIÇOA
Se fosse dor tudo na vida,
Seria a morte o sumo bem.
Libertadora apetecida,
A alma dir-lhe-ia, ansionsa: - "Vem!

"Quer para a bem-aventurança
"Leves de um mundo espiritual
"A minha essência, onde a esperança
"Pôs o seu hálito vital;

"Quer, no mistério que te esconde,
"Tu sejas, tão somente, o fim:
" - Olvido impertubável, onde
"Não restará nada de mim!"

Mas horas há que marcam fundo...
Feitas, em cada um de nós,
De eternidade de segundo,
Cuja saudade extingue a voz.

Ao nosso ouvido, embaladora,
A ama de todos os mortais,
A esperança prometedora,
Segreda coisas irreais.

E a vida vai tecendo laços
Quase impossíveis de romper:
Tudo o que amamos são pedaços
Vivos do nosso próprio ser.

A vida assim nos afeiçoa,
Prende. Antes fosse toda fel!
Que ao se mostrar às vezes boa,
Ela requinta em ser cruel...

             (Manuel Bandeira in Estrela da Vida Inteira, p. 54/55)

domingo, 28 de agosto de 2011

Por um instante apenas

Um dia apenas
Uma hora que fosse
Daquela alegria pura
Dos dias que fluíam doces
Sem calma, nem pressa
Sem dor
Ainda distantes da saudade
Ingênuos de todo o mais.

Ah, se pudesse viver
Um minuto inteiro daquela
Terna paz
Que parecia sem fim
E agora, ocupada demais,
Passa distante a rir de mim.

Penso e busco na memória
Resquícios daqueles tempos de sol
Em que a mente parecia inebriada
E o coração a transbordar de paixão

Hoje desperto
Mais um dia cansada
Dolorida das marcas que a vida me fez
Cortes profundos sangram
E eu, sozinha,
Nos medos que não enfrentei.

Agora tudo é luta.
A respiração é luta.
O coração calmo é luta.

Ah, bastava a mim
Apenas mais um segundo
Daquele tempo
Sem a poluição
Das minhas angústias.