domingo, 23 de outubro de 2011

Intuição

    Escrevo há muitos anos. Lembro de virem em minha mente idéias a serem escritas tão logo iniciava na percepção das letras e das palavras. Recordo que muito pequena escrevi este poeminha: "Como é bom ser criança e jamais perder a esperança de um dia voltar a ser criança." Devia contar lá com meus oito, nove anos, pensava em retomar algo que sequer havia perdido.
    Sempre houve, todavia, uma densidade um tanto exacerbada nos meus escritos, especialmente se comparada à minha idade. E em determinados momentos da minha vida, afastava-me dos poemas porque me conduziam a um mundo, não raras vezes dolorido e eu imatura que era, deixava-me entristecer.
     Hoje compreendo que essa minha cumplicidade com as palavras é quase como um dever, de sentimentos em palavras que necessito compartilhar.
    Alguns dos meus poemas mais densos foram escritos aos meus dezesseis anos, lançando em mim sentimentos mais profundos do que as minhas próprias, ainda tão ingênuas, vivências.
    Exemplo disso, é o poema A Ausência, que inaugura o livro.
    Após escrito compreendi que retratava a dor de uma senhora de muita idade, cabelos cinza, quase branquinhos, que vivia em uma casa, simples, de madeira com uma varanda e que num entardecer de outono, olhava a vista solitária de seu lar, saudosa do marido que já havia falecido.
   Diz o poema:

" Folhas caem pela varanda
da minha-nossa casa,
enquanto o vento parece levar, a cada dia,
um pouco da nossa felicidade.
E, inconscientemente, me pego sozinha
a olhar pela janela
tentando encontrar-te em algum lugar da paisagem,
mas tudo parece tão triste...
Olho ao redor e tento convencer-me
de que nada mudou,
mas, como?
Se dentro de mim algo dói demais.
Às vezes chego a por a mão no peito
para ver se meu coração ainda está aqui,
porque se fecho meus olhos
esse vazio que atordoa a minha alma
faz-me crer que o levaste contigo.


E quando o sol insiste em tocar
neste meu rosto cansado
convenço-me de que ainda há vida
e que o sonho de te reencontrar
pode, de alguma forma, tornar-se real.


E se a chuva cai devagarinho,
confundindo-se com as minhas lágrimas,
posso, ainda, sentir-te ao meu lado
como quando chorávamos de felicidade.


Hoje, sonhei mais uma vez
contigo
e com as palavras tã especiais
que me dizias,
com o teu jeito seguro de me olhar,
de me pegar em teus braços
onde eu quase desaparecia
e sorria.


E te imaginei
ao meu lado novamente
a olhar-me com aquele ar inocente,
jeito de menino,
cujo brilho nos olhos
as tristezas jamais conseguiram apagar.


E, de repente, já não posso
impedir a lágrima
que escorre pelo meu rosto...
E lembro o quanto fui feliz!
As flores que deixo
a cada amanhacer
temo não as perceba.
Mas persiste em meu ser
a esperança de estares, de alguma maneira,
ouvindo as minhas palavras...


Gostaria apenas que soubesses,
  que entendesses,
    o quanto
     e como
      sinto a tua falta.
Mas as folhas, ainda assim,
caem
como que indiferentes
ao meu sofrimento."


   

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