" Em beira ao rio escuro fez a prece mais desesperada
Debruçada sobre as margens clamou por ajuda
As lágrimas escorriam constantes, mornas de dor
O sol escondido no horizonte indicava um rasgo de vida
Mas a dor estrangulante, sufocante, arrebatava-lhe a alma
Não queria compreender porque agira daquela forma
Retumbava em seus ouvidos a culpa pela escolha errada
Nada mais parecia salvar-lhe as esperanças
De joelhos, entregue, abandonou-se em si mesma
Recolhida no íntimo de sua mente
Recordou momentos de paz
Sorrisos infantis adentraram-lhe a mente
E pode ver seu filho, ainda, muito menino
Correndo sem rumo pelo campo de borboletas
Quase podia alcançá-lo...
Os sons misturavam-se ao silêncio do rio
Percebeu, ainda uma vez, o brilho insubstituível
Daqueles olhinhos cansados, mas felizes
A luta era tão árdua, cruel, devastadora
Era forte, todos diziam,
Sem saber da fragilidade imensurável de seus pensamentos
Da incerteza constante de sua mente
Do medo aterrorizador que bravamente afastava a cada segundo
Ainda entregue, percebeu seu menino, saudável, como era
Rindo e correndo
Caçoando de suas preocupações
E deixou-se esboçar um sorriso...
Sim
Enquanto pudesse reviver aquela certeza
Haveria esperança
Tomando nas mãos a força das águas e das pedras
Fez sua aquela fortaleza
Como que embebida pelo líquido da confiança
Abriu seus olhos e viu-se brava de novo
Apta a retornar a batalha
Pelo seu grande menino, que,
Tomado pelas escolhas erradas
Cercado pela dor e angústia
Perdido
Clamava pela sua ajuda
Uma vez mais."
O crack destrói vidas, mas antes delas, corrói sonhos, estanca esperanças, destroça os laços familiares, impondo às vítimas de tão cruel algoz um sofrimento perene, permeado por crises de violência, às vezes fatais.
O sofrimento desta é o de outras tantas mães. As lembranças desta são tão amorosas como das demais. Todos queremos um futuro saudável e seguro para nossas crianças, que o tempo, inexorável, tornará, em um segundo, adolescentes, em outro, adultos.
A percepção do ser humano com suas fraquezas e a aceitação de que escolhas erradas não acontecem apenas no bairro distante, mas na porta da nossa escola, há de abrir-nos os olhos, antes que nos encontremos, em desespero, buscando no passado um sinal do filho que uma vez nos abraçou como se pudéssemos, naquele e em outros momentos, protegê-lo de toda a dor.
Que o diálogo nos mantenha próximos de nossas crianças. Que a informação os ajude a escolher o melhor caminho. Que tendo eles encontrado o inimigo, sejamos, juntos, fortes, bravos, imbatíveis, pois droga alguma, por mais devastadora que seja, poderá apagar os momentos sublimes de amor e a capacidade de superação que existe em cada um de nós.