sábado, 24 de setembro de 2011

Uma mãe, o crack e a esperança

" Em beira ao rio escuro fez a prece mais desesperada
Debruçada sobre as margens clamou por ajuda
As lágrimas escorriam constantes, mornas de dor
O sol escondido no horizonte indicava um rasgo de vida
Mas a dor estrangulante, sufocante, arrebatava-lhe a alma
Não queria compreender porque agira daquela forma
Retumbava em seus ouvidos a culpa pela escolha errada
Nada mais parecia salvar-lhe as esperanças
De joelhos, entregue, abandonou-se em si mesma
Recolhida no íntimo de sua mente
Recordou momentos de paz
Sorrisos infantis adentraram-lhe a mente
E pode ver seu filho, ainda, muito menino
Correndo sem rumo pelo campo de borboletas
Quase podia alcançá-lo...
Os sons misturavam-se ao silêncio do rio
Percebeu, ainda uma vez, o brilho insubstituível
Daqueles olhinhos cansados, mas felizes
A luta era tão árdua, cruel, devastadora
Era forte, todos diziam,
Sem saber da fragilidade imensurável de seus pensamentos
Da incerteza constante de sua mente
Do medo aterrorizador que bravamente afastava a cada segundo
Ainda entregue, percebeu seu menino, saudável, como era
Rindo e correndo
Caçoando de suas preocupações
E deixou-se esboçar um sorriso...
Sim
Enquanto pudesse reviver aquela certeza
Haveria esperança
Tomando nas mãos a força das águas e das pedras
Fez sua aquela fortaleza
Como que embebida pelo líquido da confiança
Abriu seus olhos e viu-se brava de novo
Apta a retornar a batalha
Pelo seu grande menino, que,
Tomado pelas escolhas erradas
Cercado pela dor e angústia
Perdido
Clamava pela sua ajuda
Uma vez mais."

         O crack destrói vidas, mas antes delas, corrói sonhos, estanca esperanças, destroça os laços familiares, impondo às vítimas de tão cruel algoz um sofrimento perene, permeado por crises de violência, às vezes fatais.
            O sofrimento desta é o de outras tantas mães. As lembranças desta são tão amorosas como das demais. Todos queremos um futuro saudável e seguro para nossas crianças, que o tempo, inexorável, tornará, em um segundo, adolescentes, em outro, adultos.
            A percepção do ser humano com suas fraquezas e a aceitação de que escolhas erradas não acontecem apenas no bairro distante, mas na porta da nossa escola, há de abrir-nos os olhos, antes que nos encontremos, em desespero, buscando no passado um sinal do filho que uma vez nos abraçou como se pudéssemos, naquele e em outros momentos, protegê-lo de toda a dor.
            Que o diálogo nos mantenha próximos de nossas crianças. Que a informação os ajude a escolher o melhor caminho. Que tendo eles encontrado o inimigo, sejamos, juntos, fortes, bravos, imbatíveis, pois droga alguma, por mais devastadora que seja, poderá apagar os momentos sublimes de amor e a capacidade de superação que existe em cada um de nós.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

A te perder

Descabe agora indagar por que
Merecias tão grande devoção
Eras parte e todo num só
Via em ti a mais bela canção

Todavia sem mais, nem perceber
Abandonas o meu mais cálido querer
Deixas a mim
Como barco ao mar
Lançanda, enfim
A mim a chorar

Peço-te.
Clamo por perdão.
Tentativa louca
Seguro-te nas mãos.

Sem me ver
Desprezas o olhar.
A lágrima em mim
Para sempre ficará

De joelhos
Em mim
Mas já nem mais
Ouço o som da
Tua presença que se vai

No escuro
Sem ar nem mansidão
Entrego enfim
A Deus
Meu coração.

domingo, 18 de setembro de 2011

O primeiro voo

E o pássaro deu o primeiro salto
sua asas, de inexperientes,
o levaram ao chão
e sentiu a terra imponente
adentrar por suas penas,
impondo-lhe decisão e luta.

No entanto, não tinha sequer a visão do ninho
que, de tão distante,
acabou por duvidar-lhe a existência.
Não se permitiu, todavia, sentir a dor
que objetivamente existia
e fingiu não ver o líquido avermelhado
que escorria por suas penas, quase plumas,
brancas,
agora rosadas.

Eergueu com cuidado a cabeça
e viu todo o mundo,
que se resumia a algumas rosas esquecidas,
em meio à imensidão quase vazia
daquela terra distante
que do alto
sonhara sempre em conhecer.

Sentiu uma brisa que acalmou suas ansiedades
transmitindo-lhe a paz
que jamais imaginara existir,
quando foi tomado nas mãos
de uma das criaturas grandes que já havia avistado.

Temeroso, estranhamente,
sentiu-se protegido.
No entanto, o sol já havia se posto.
Infelizmente, cedo demais,
levando a primeira
e única
e última
imagem que teve deste mundo.

Tempo...
pouco.

Tarde demais
para essas criaturinhas que nos damos ao direito
de tirar as vidas
antes mesmo que a vida por inteira
seja por elas conhecida.
Pois nada mais cruel do que a falta de oportunidades
e nada mais eficaz para destruir vidas e sonhos
do que não se ter para onde olhar,
do que não ser notado
do que simplesmente não ser.

Se ainda resta esperança,
é pouca
para as nossas tantas
e quantas
criaturinhas,
que nem sequer conseguem
dar o primeiro voo
e já caem forte demais
para pensar em sonhar.



(Este poema foi publicado em 1995, na 4a Coletânia do Centro Literário Pelotense - CLIPE)

domingo, 11 de setembro de 2011

Um filme para ser sentido

    Vi um filme bem interessante. O título, como não raro acontece, não lhe faz jus: "Se enlouquecer não se apaixone". Trata de um menino, nos auge dos seus dezesseis anos - aquele tempo do qual todos sentimos falta -  que pensa em suicidar-se e ao descobrir-se na sua bicicleta, quase a pular da ponte, resolve procurar ajuda em um pronto socorro.  Acaba, após alguma insistência sua, internado na ala psiquiátrica do hospital e lá, enclausurado, aprende a apreciar da vida, o que muitos de nós já esqueceram.
    O filme, ao contrário do que possa parecer, é denso sem ser piegas. Possui a leveza da narrativa toda em nome do próprio jovem e retrata de modo justo e sensível a vulnerabilidade humana.
    O permitir-se vulnerável, na atualidade, antes de representar fraqueza, deve indicar coragem. Vivemos na época em que o parecer transcende o sentir. Temos de ser fortes, hábeis, bem sucedidos, bem amados, sadios, inteligentes, sempre. E para quê? Para quem? No final devemos mesmo satisfação aos nossos mais internos sentimentos. Estou sendo honesto com minhas aspirações verdadeiras?
    O filme trata da liberdade. Libertar-se... dos papéis que nos são revelados com o amadurecer; das rotinas asfixiantes; do deslinde que acham escrito para a nossa vida.
    E também revela a compaixão e a capacidade que todos possuem de interferir positivamente nas dores e insanidades alheias.
    A mesma depressão que assolou o menino, vez por outra bate a nossa porta. Acredito que haja um véu, tênue até certo ponto, que nos separa da depressão, especialmente nos momentos agudos de dor. Como uma cortina transparente e fina a tocar-nos a face. Mas uma vez atravessada, torna-se densa, escura e, apenas com muito esforço, voltamos ao estágio anterior.
    O filme materializa esse grito de ajuda. Às vezes inaudível, abafado que está de tanto sofrimento. Cabe a nós, no momento no lado de cá, ouvir. Apenas ouvir e valorizar essa doença tão comum, que apanha de forma sorrateira pré adolescentes e até crianças.
    Em dias corridos, de internet e informação é preciso parar. Como o aviso aos trens, nossas crianças precisam que paremos.
    Paremos, tudo, verdadeiramente, não adianta conversar com o olho espichado na novela ou futebol. Olhemos, intensamente, com a alma aberta para o que tiver de ser visto. E finalmente, escutemos, sem crítica imediata, sem interrupções, apenas escutar.
   E talvez então tenhamos chance contra esse mal, cruel, que suga da alma o desejo de viver e joga o corpo, cansado, oco, a um sobreviver temporário, provisório, a espreita do final.
    O filme deixa uma mensagem de esperança. Não ingênua, mas verdadeira. E finaliza num lindo ode à vida pleno de simplicidade, o que, a meu ver, é o que temos de melhor.

sábado, 3 de setembro de 2011

Novas Portas

   Em que exato momento perdemos o frescor da mente, a esperança ingênua, a coragem de tudo?
   Qual o instante, acontecimento que nos aparta dessa vida leve?
   Ou será que, em verdade, vamos galgando uma escadaria e quanto mais alto subimos mais nos afastamos daquela simplicidade e singeleza, alegria e inocência infantis?
   Acredito que há momentos em que o peso da realidade nos afasta por demais da essência.  
   Como se cascos fossem aderindo à nossa pele, formando camadas e camadas de proteção.
   Essas mesmas camadas que logo ali nos impedem de apreciar o segundo de genuína felicidade.
   A fortaleza protege e afasta. O medo cria mais e maiores barreiras, que em verdade de forma labiríntica, de quando em quando, chegam a asfixiar.
   Proponho uma revolução interna. Lotada de riscos. Intuída por aquela leveza que todos trazem de algum momento da vida.
   Arranquemos os cascos, um a um.
   Derrubemos as paredes do labirinto (em verdade frágeis, arenosas, apenas ali em ilusão).
   Desnudemo-nos dos 'pré conceitos', das críticas, das expectativas.
   Encontremos a vida como quem se atira ao mar em um dia de calor.
   Intensamente.
   Totalmente.
   “Abre-te!”
   Li e jamais esqueci.
   Temos em nosso interior o poder de operar mudanças absurdas e inesperadas nas nossas vidas.
   Cada inspiração é um novo recomeço.
   É preciso que se viva melhor.
   A evolução dos tempos tornou-nos escravos das responsabilidades, horários, salários e olvidou-se de trazer a chave para viver em meio a essa perturbação.
   Não se vê ensinarem  o poder da inteligência emocional.
   O que não significa estarmos impedidos de desenvolver esse autoconhecimento.
   Que a vida venha em cores. E que nós saibamos percebê-la.
   Que o dia mais enfadonho não nos afaste da convicção de que estar vivo já é a preciosidade extrema.
   Que possamos abrir a cada dia uma porta diferente, sem medos, com a ansiedade, aquela de antes, do frescor.
   Enfim,
      que venha a vida!