Vi um filme bem interessante. O título, como não raro acontece, não lhe faz jus: "Se enlouquecer não se apaixone". Trata de um menino, nos auge dos seus dezesseis anos - aquele tempo do qual todos sentimos falta - que pensa em suicidar-se e ao descobrir-se na sua bicicleta, quase a pular da ponte, resolve procurar ajuda em um pronto socorro. Acaba, após alguma insistência sua, internado na ala psiquiátrica do hospital e lá, enclausurado, aprende a apreciar da vida, o que muitos de nós já esqueceram.
O filme, ao contrário do que possa parecer, é denso sem ser piegas. Possui a leveza da narrativa toda em nome do próprio jovem e retrata de modo justo e sensível a vulnerabilidade humana.
O permitir-se vulnerável, na atualidade, antes de representar fraqueza, deve indicar coragem. Vivemos na época em que o parecer transcende o sentir. Temos de ser fortes, hábeis, bem sucedidos, bem amados, sadios, inteligentes, sempre. E para quê? Para quem? No final devemos mesmo satisfação aos nossos mais internos sentimentos. Estou sendo honesto com minhas aspirações verdadeiras?
O filme trata da liberdade. Libertar-se... dos papéis que nos são revelados com o amadurecer; das rotinas asfixiantes; do deslinde que acham escrito para a nossa vida.
E também revela a compaixão e a capacidade que todos possuem de interferir positivamente nas dores e insanidades alheias.
A mesma depressão que assolou o menino, vez por outra bate a nossa porta. Acredito que haja um véu, tênue até certo ponto, que nos separa da depressão, especialmente nos momentos agudos de dor. Como uma cortina transparente e fina a tocar-nos a face. Mas uma vez atravessada, torna-se densa, escura e, apenas com muito esforço, voltamos ao estágio anterior.
O filme materializa esse grito de ajuda. Às vezes inaudível, abafado que está de tanto sofrimento. Cabe a nós, no momento no lado de cá, ouvir. Apenas ouvir e valorizar essa doença tão comum, que apanha de forma sorrateira pré adolescentes e até crianças.
Em dias corridos, de internet e informação é preciso parar. Como o aviso aos trens, nossas crianças precisam que paremos.
Paremos, tudo, verdadeiramente, não adianta conversar com o olho espichado na novela ou futebol. Olhemos, intensamente, com a alma aberta para o que tiver de ser visto. E finalmente, escutemos, sem crítica imediata, sem interrupções, apenas escutar.
E talvez então tenhamos chance contra esse mal, cruel, que suga da alma o desejo de viver e joga o corpo, cansado, oco, a um sobreviver temporário, provisório, a espreita do final.
O filme deixa uma mensagem de esperança. Não ingênua, mas verdadeira. E finaliza num lindo ode à vida pleno de simplicidade, o que, a meu ver, é o que temos de melhor.
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