quarta-feira, 22 de agosto de 2012

COMPREENSÃO


A luz clara e tranquila reconfortava-lhe a alma,
trazendo a maravilhosa sensação de bem-estar.
Na relva, sob o sol, sentia o perfume das flores e
o cheiro das árvores.
O poder da natureza transbordava energia.
Serenidade
alcançadas após muito trabalho,
enorme doação.
Os tropeços evitam as grande quedas.
E mesmo as quedas, nada mais são do que
impulsos para o levantar novamente.
Tempo...
Como as certezas antigas, as ansiedades constantes
foram sendo afastadas.
A cada segundo, por mais um dia, uma única semana.
O saber viver compreende-se pelo deixar viver
e não fazer como se presume melhor.
A aceitação sem cunho de derrota
eleva o espírito e fortifica a alma.
O afastamento do eu e do orgulho
aproxima-nos da paz,
estreita nossa relação com Deus.
O amor deve superar o eu, para ser amor
simplesmente.
Para trazer de volta o sentimento do bem-querer apenas.
Nada mais.
Nada além
do que a tão almejada felicidade,
amiga íntima da paz interior.

                                   ( do meu livro Fragmentos do Passado)

Retorno

Volto, porque tempo demais.
Volto, necessidade atroz.
Volto porque meu coração
Apertado, havia calado a voz.

Mudanças, sonhos em verdade
Vida louca, impõe a decisão
Passo a passo a máscara desfaz-se
Vê-se que a dúvida era toda em vão.

Outra, mas ainda assim em mim
Nova, como a flor da solidão
Extemporânea, ainda amedrontada
Pétala a pétala, com raízes presas ao chão.

Volto, de coração inflado
Pela saudade da palavra solta ao ar
Pela frase que se une ao imaginado
Pelo anseio, de também eu, me libertar.






quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Fragmentos do nosso passado

    Realizados os lançamentos dos livros em Porto Alegre e Rio Grande, começo agora a receber mensagens dos meus novíssimos leitores que muito me emocionam e incentivam.  Escrever sempre foi para mim uma atitude totalmente solitária e, por consequência, segura. Talvez por esse motivo, alguns dos meus poemas agora publicados estavam guardados há quase vinte anos. A percepção dos que escutam agora os ruídos mais profundos da minha alma é de extrema importância para mim. Por isso coloquei no livro os meus contatos. Aprecio por demais essas opiniões, mesmo as desfavoráveis, as lendo com respeito e atenção. De tudo, o que mais me comove é perceber que de algum modo, certas pessoa foram tocadas profundamente pelo que leram.  A divulgação do livro, tornando públicos os meus sentimentos, dores e esperanças, trouxe uma sensação incrível de liberdade que quero também compartilhar. Não é demais repetir que a vida é breve e é hoje. Nenhum segundo antes ou após. Portanto, libertem-se! Exponham-se nas suas verdades tornando-se mais leves.  O dia para ser feliz é hoje, da forma como se apresenta, mesmo repleto de contratempos. Quando a maré é ruim basta a certeza de que passará, com aquela convicção de que a impermanência é a realidade. Mas, se o momento é de alegria, então não há desculpas. Absorvam, profundamente essa sensação e permitam-se, simplesmente, a felicidade.

domingo, 23 de outubro de 2011

Intuição

    Escrevo há muitos anos. Lembro de virem em minha mente idéias a serem escritas tão logo iniciava na percepção das letras e das palavras. Recordo que muito pequena escrevi este poeminha: "Como é bom ser criança e jamais perder a esperança de um dia voltar a ser criança." Devia contar lá com meus oito, nove anos, pensava em retomar algo que sequer havia perdido.
    Sempre houve, todavia, uma densidade um tanto exacerbada nos meus escritos, especialmente se comparada à minha idade. E em determinados momentos da minha vida, afastava-me dos poemas porque me conduziam a um mundo, não raras vezes dolorido e eu imatura que era, deixava-me entristecer.
     Hoje compreendo que essa minha cumplicidade com as palavras é quase como um dever, de sentimentos em palavras que necessito compartilhar.
    Alguns dos meus poemas mais densos foram escritos aos meus dezesseis anos, lançando em mim sentimentos mais profundos do que as minhas próprias, ainda tão ingênuas, vivências.
    Exemplo disso, é o poema A Ausência, que inaugura o livro.
    Após escrito compreendi que retratava a dor de uma senhora de muita idade, cabelos cinza, quase branquinhos, que vivia em uma casa, simples, de madeira com uma varanda e que num entardecer de outono, olhava a vista solitária de seu lar, saudosa do marido que já havia falecido.
   Diz o poema:

" Folhas caem pela varanda
da minha-nossa casa,
enquanto o vento parece levar, a cada dia,
um pouco da nossa felicidade.
E, inconscientemente, me pego sozinha
a olhar pela janela
tentando encontrar-te em algum lugar da paisagem,
mas tudo parece tão triste...
Olho ao redor e tento convencer-me
de que nada mudou,
mas, como?
Se dentro de mim algo dói demais.
Às vezes chego a por a mão no peito
para ver se meu coração ainda está aqui,
porque se fecho meus olhos
esse vazio que atordoa a minha alma
faz-me crer que o levaste contigo.


E quando o sol insiste em tocar
neste meu rosto cansado
convenço-me de que ainda há vida
e que o sonho de te reencontrar
pode, de alguma forma, tornar-se real.


E se a chuva cai devagarinho,
confundindo-se com as minhas lágrimas,
posso, ainda, sentir-te ao meu lado
como quando chorávamos de felicidade.


Hoje, sonhei mais uma vez
contigo
e com as palavras tã especiais
que me dizias,
com o teu jeito seguro de me olhar,
de me pegar em teus braços
onde eu quase desaparecia
e sorria.


E te imaginei
ao meu lado novamente
a olhar-me com aquele ar inocente,
jeito de menino,
cujo brilho nos olhos
as tristezas jamais conseguiram apagar.


E, de repente, já não posso
impedir a lágrima
que escorre pelo meu rosto...
E lembro o quanto fui feliz!
As flores que deixo
a cada amanhacer
temo não as perceba.
Mas persiste em meu ser
a esperança de estares, de alguma maneira,
ouvindo as minhas palavras...


Gostaria apenas que soubesses,
  que entendesses,
    o quanto
     e como
      sinto a tua falta.
Mas as folhas, ainda assim,
caem
como que indiferentes
ao meu sofrimento."


   

sábado, 8 de outubro de 2011

Pura e bela amizade

De quando em quando
Uma se ergue, consolida
A amizade faz-se verdadeira
E de harmonia preenche a vida

O ar parece fluir mais tranquilo
A inquieta mente encontra abrigo
Nem tudo se mede ou quantifica
Mas pouco é tão caro como um amigo

Na dor, compreende
Na alegria, compartilha
Não dá, nem pede.
Alivia. Alivia.

Quando revolto o oceano ou
Areias de vento nos alcançam
Olhos cegos parecem pedir direção.
Felizes os que nas horas mais complexas
Nos momentos mais desesperados
Têm um amigo, perto ao coração.

A dedicação sem cobrar
A palavra marejada no olhar
O apoio quando tudo a desintegrar
A escada no vão da vida a salvar.

Amiga,
Tem como tua a minha mão
Já calejada e também frágil
Mas morna de tanto amor.
Divido contigo o teu sofrer
Para transbordar em mim a ânsia
De juntas, sem dúvida, vencer.

sábado, 24 de setembro de 2011

Uma mãe, o crack e a esperança

" Em beira ao rio escuro fez a prece mais desesperada
Debruçada sobre as margens clamou por ajuda
As lágrimas escorriam constantes, mornas de dor
O sol escondido no horizonte indicava um rasgo de vida
Mas a dor estrangulante, sufocante, arrebatava-lhe a alma
Não queria compreender porque agira daquela forma
Retumbava em seus ouvidos a culpa pela escolha errada
Nada mais parecia salvar-lhe as esperanças
De joelhos, entregue, abandonou-se em si mesma
Recolhida no íntimo de sua mente
Recordou momentos de paz
Sorrisos infantis adentraram-lhe a mente
E pode ver seu filho, ainda, muito menino
Correndo sem rumo pelo campo de borboletas
Quase podia alcançá-lo...
Os sons misturavam-se ao silêncio do rio
Percebeu, ainda uma vez, o brilho insubstituível
Daqueles olhinhos cansados, mas felizes
A luta era tão árdua, cruel, devastadora
Era forte, todos diziam,
Sem saber da fragilidade imensurável de seus pensamentos
Da incerteza constante de sua mente
Do medo aterrorizador que bravamente afastava a cada segundo
Ainda entregue, percebeu seu menino, saudável, como era
Rindo e correndo
Caçoando de suas preocupações
E deixou-se esboçar um sorriso...
Sim
Enquanto pudesse reviver aquela certeza
Haveria esperança
Tomando nas mãos a força das águas e das pedras
Fez sua aquela fortaleza
Como que embebida pelo líquido da confiança
Abriu seus olhos e viu-se brava de novo
Apta a retornar a batalha
Pelo seu grande menino, que,
Tomado pelas escolhas erradas
Cercado pela dor e angústia
Perdido
Clamava pela sua ajuda
Uma vez mais."

         O crack destrói vidas, mas antes delas, corrói sonhos, estanca esperanças, destroça os laços familiares, impondo às vítimas de tão cruel algoz um sofrimento perene, permeado por crises de violência, às vezes fatais.
            O sofrimento desta é o de outras tantas mães. As lembranças desta são tão amorosas como das demais. Todos queremos um futuro saudável e seguro para nossas crianças, que o tempo, inexorável, tornará, em um segundo, adolescentes, em outro, adultos.
            A percepção do ser humano com suas fraquezas e a aceitação de que escolhas erradas não acontecem apenas no bairro distante, mas na porta da nossa escola, há de abrir-nos os olhos, antes que nos encontremos, em desespero, buscando no passado um sinal do filho que uma vez nos abraçou como se pudéssemos, naquele e em outros momentos, protegê-lo de toda a dor.
            Que o diálogo nos mantenha próximos de nossas crianças. Que a informação os ajude a escolher o melhor caminho. Que tendo eles encontrado o inimigo, sejamos, juntos, fortes, bravos, imbatíveis, pois droga alguma, por mais devastadora que seja, poderá apagar os momentos sublimes de amor e a capacidade de superação que existe em cada um de nós.